domingo, 3 de janeiro de 2010

Primeiro Natal sem ti

O fio não foi cortado...





Pedro, meu menino, quando nasceste foi Natal. A primeira vez que te vi exclamei "Que bonito!" Depois, todos os anos foi Natal!


À mesa da ceia de Consoada, na casa da tia, juntámo-nos familiares e amigos, num ritual de afetos que nunca falhámos desde o teu nascimento.


O teu lugar - estás a vê-lo? - costumava ser ao lado do primo. Este ano a mãe não levou os ovos recheados de que tanto gostavas. Não lhe apeteceu fazê-los. Também não teve tempo. Por causa de uma grande nevada em Travancas só pudémos sair de lá dia 23 de Dezembro ao fim do dia.

Como sabes os pratos servidos na ceia de Consoada são os tradicionais bacalhau e polvo cozidos e, por influência lisboeta, perú assado no forno. As couves e as batatas, como outras de sabor igual não há, vieram de Trás-os-Montes.


No Natal comem-se muitos doces e frutos. De tudo provei um pouco: lampreia, bolo-rei, pudim, sonhos, pudim, filhós, rabanadas, ananás, figos, nozes, ameixas e tâmaras. A prenda da tua irmã, para mim e para a mãe, foi um vale para termos aulas de natação na piscina de Escola Náutica. Não me apetece mas como estou com excesso de peso, vou fazer-lhe a vontade e deixá-la feliz. Foi ela, mais uma vez, que fez a distribuição das prendas de Natal.


Gosto muito das rabanadas da tia. Ainda nos deu algumas para comermos em casa.





Depois da ceia, e antes da distribuição das prendas, fomos à igreja de São Julião do Tojal, assistir à Missa do Galo. Gostei muito dos cânticos. Na casa da tia, ao contrário do que é habitual, ninguém cantou músicas da quadra natalícia.


Dia 25 de Dezembro, dia de Natal, voltámos à tia para almoçarmos com os tios e os primos.


No Domingo regressámos mais uma vez a Santo Antão. A tia mandou rezar missa por intenção dos membros da família que faleceram e convidou-nos para o almoço.
Na igreja estavam rapazes e meninos da Casa do Gaiato. Portaram-se bem, via-se que tinham educação religiosa. Ao vê-los, sentados nos bancos à minha frente, lembrei-me dos jovens violados na Casa Pia. Quantos deles ficarão imunes a abusos sexuais por parte de quem tem o dever de os proteger?

Em casa, desde que cresceste, quem fazia a árvore e o presépio com musgo da Serra de Sintra, eras tu!
Este ano, como nem eu e a mãe estivéssemos motivados, a tua irmã surpreendeu-nos agradavelmente, fazendo ela a árvore de Natal e o presépio, durante a nossa ausência em Trás-os-Montes.


A ceia de fim de ano, como habitualmente, foi em nossa casa. Só estávamos oito. A tua irmã foi passar o fim de ano à Bélgica e os teus primos passaram o Ano Novo com amigos.
A mãe, como sabes, cozinha muito bem. Para o jantar de fim de ano voltou a cozer bucho, encomendado à dona Conceição de Travancas, e serviu-o com grelos de Mirandela e batatas cozidas trazidas da aldeia. Estava saboroso, assim como o caldo de castanhas.
Pedro em Volendam, Holanda
Não me conformo com o que aconteceu; sinto muitas saudades de ti, meu filho, meu tesouro! Este Natal, sem ti, foi o mais triste da minha vida. Na passsagem do ano não formulei nenhum desejo nem comi as doze passas. O que eu gostava era de te ver em cima do trator. Fazias tudo tão bem! Nas últimas férias passeaste comigo e com a mãe, fui-te mostrar a Ruta do Contrabando em Segirei, bebemos cerveja e comemos amendoins na praia fluvial.
Pedro no Rio Vtlava em Praga
A vida continua...
A menina com quem foste ver o concerto de Kusturica no Algarve, no último Verão, vai ser mãe. Apetece-me repetir-lhe as palavras com que o anjo Gabriel anunciou a Maria o nascimento de Jesus: "Ave Maria cheia de graça, o Senhor esteja contigo, bendita sejas tu entre as mulheres e bendito seja o fruto do teu ventre".

Algum tempo ausente de Oeiras voltei neste fim de ano ao paredão, onde tu chegaste a andar de patins em linha. Nunca te disse nada mas gostava de te ver patinar, de ver as tuas pernas e tronco ondearem em cima dos patins numa sintonia perfeita que dava gosto ver. A tua paixão era o hóquei em patins mas eu desviei-te para a natação ...
A mãe ficou no carro. Saí para tirar uma foto e, apanhado por uma repentina chuvada, acabei regressando encharcado.

domingo, 25 de outubro de 2009

Corrida do Tejo

25 de Outubro de 2009
10 km a correr pela Marginal


Rabo da Baleia, num dia diferente




A panorâmica Estrada Marginal, desde Algés até ao Alto da Barra, em Oeiras, cobriu-se hoje de um mar de atletas vestidos de azul.



A corrida, na 29ª edição, teve a participação de 10 000 participantes inscritos, um record.


De pequenino se torce o pepino! Papá, ou avô, a fazer o baptismo da criança na prova.


Corredor de fundo
Que equilibrista! Percorrer 10 km a correr, sem partir os copos, merece aplausos!







Falta Pouco!
Rosa Mota, ao km 8, a incentivar os atletas a chegar ao fim da prova.


Passagem pelo Alto da Barra





Último grupo de participantes acompanhado pela policia e pelos bombeiros


Isaltino e Rosa Mota

O Presidente da Câmara Municipal de Oeiras também percorreu as últimas centenas de metros, acompanhado de Rosa Mota. No Jornal da TV soube que o indigitado primeiro-ministro também participou.



Cidadão acompanhado dos seus fiéis amigos, a chegar à meta





Terminada a prova os atletas recuperam energias descansando ...
... ou fazendo exercícios

Sou português!
Parece dizer o atleta senior com óculos de Sol, lenço ao pescoço e bandeira nacional.


Quentes e boas
Castanhas de Vinhais









segunda-feira, 8 de junho de 2009

Desfile Pombalino


Viagem ao tempo dos déspotas esclarecidos

Dom Jose I - o Reformador, a raínha Maria Vitória e o mestre de cerimónias
No âmbito da celebração dos 250 anos da elevação de Oeiras a concelho, a Câmara Municipal de Oeiras recriou na tarde de Sábado, dia 6 de Junho, uma visita do rei Dom José I ao Conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Melo, seu poderoso primeiro ministro e autor da célebre frase "Enterrem-se os mortos e cuidem-se dos vivos", proferida logo após o terramoto de 1755.

O chamado Desfile Pombalino consistiu na viagem da comitiva real entre as vilas de Paço de Arcos e Oeiras e na festa de recepção ao rei nesta vila.

A comitiva real partiu do Palácio dos Arcos na vila de Paço de Arcos e foi até ao Palácio do Marquês, residência do então ainda Conde de Oeiras.


Palácio dos Arcos engalanado para receber o rei

Este bonito palácio do século XV, cujos jardins estão abertos ao público, deu nome à vila de Paço de Arcos. Pertenceu aos condes de Alcáçovas e hoje é propriedade municipal. Consta, sem confirmação histórica, que D. Manuel I vinha ver das suas janelas a partida das caravelas.


Família real portuguesa

O rei Dom José I com a raínha Maria Vitória de Bourbon; a filha mais velha, Maria Francisca, sucessora do trono, e D. Pedro de Bragança, irmão do rei. Mais tarde o tio casa com a sobrinha e, posteriormente, ambos sobem ao trono; ela com o título de D. Maria I, ele com o título de D. Pedro III. Deste rei, o historiador Oliveira Martins diz que "não se concebe homem mais feio, com cara de idiota, expressão feroz, cabeleira desalinhada, ar de bêbado, um sacristão." Fiquei desconcertado por a herdeira do trono ser representada por uma actriz mais velha que a própria rainha!


Coche da princesa herdeira e do rei consorte, D. Pedro III
A família real partiu para Oeiras em dois belos coches que não pude apurar em que museu se encontram guardados. Terão sido encomendados a oficinas francesas da Époque des Lumières para circular em caminhos lamacentos portugueses? São carroças lindíssimas, não custando acreditar que sejam o topo de gama da época, comprados para impressionar as cortes europeias mais sofisticadas. A raínha Maria Vitória, filha de Carlos V, rei de Espanha, em carta escrita ao pai, dizia que o sogro, Dom João V, fazia despesas perdulárias. As iluminadas elites de hoje, convencidas de que o hábito faz o monge, colhem aí bons exemplos de como podem ser utilizados os dinheiros públicos.



Charameleiros abrem Desfile Pombalino

Este numeroso grupo de homens, com ricos uniformes de veludo encarnado, debroados a ouro, são os charameleiros, tocadores de charamela, trombeta medieval, aparentada com o oboé e o clarinete. A sua presença era obrigatória nos cortejos reais. O som sublinhava a solenidade e a proximidade do rei ou do seu representante. O efeito cénico e o som da charamela são de se lhes tirar o chapéu!


Fidalgas montadas a cavalo também participaram no cortejo. Ao vê-las, de porte altivo, traços delicados, rosto alvo e vestidas com roupa fina, senti-me transportado para o mundo faustoso das côrtes europeias mais requintadas. Diante de seres etéreos como não sentir-me labrêgo e, reverente, reconhecer a superioridade da nobreza!


Baco, em cima de um garrido carro de bois e acompanhado de belas bacantes, foi bastante aplaudiddo pela populaça, rivalizando em vivas com os vivas ao rei. Desconheço a intenção da sua inclusão no cortejo real, assim como a ausência do clero. Todavia, esta ausência talvez possa ser explicada pela perseguição aos Jesuítas feita pelo pelo poderoso Marquês de Pombal, membro da maçonaria.

Povo e escravos fecharam o cortejo da viagem do rei a Oeiras. O povo fica no fim do cortejo como fica na base piramidal da hierarquia social. Quanto a mim, mea culpa, pois nem uma foto tirei ao grupo de escravos!


Desfile passando sob jacarandá florido
Nesta época do ano as ruas de Oeiras, onde há jacarandás, ficam mais belas com as árvores floridas de roxo. Quanto aos charameleiros, alguns tocam trombeta e outros são porta-estandartes, cocheiros e guardas-reais.

Chegada à freguesia de Oeiras
A escolta real de charameleiros a entrar na Rua de Oeiras do Piauí. Os moradores da casa amarela estenderam valiosas colchas às janelas para saudar a passagem de sua magestade fidilíssima, El Rey Dom Jose I e seu séquito.


Carro de Baco deixando a Rua de Oeiras do Piauí e entrando na Rua Cândido Reis. A propósito, gostava de saber a razão pela qual o "prefeito" da cidade brasileira geminada com Oeiras, ao contrário de outros presidentes de câmara de cidades geminadas, não faz parte da Comissão de Honra que celebra os 250 anos de elevação a concelho. Relações cortadas?


Com a aproximação da comitiva real, oficiais da guarda do Conde de Oeiras, numa atitude protocolar, subiram a Rua Cândido Reis ao encontro do séquito real, tendo-se-lhe juntado na última parte do percurso. Aparecem na foto, atrás dos charameleiros. Os garbosos oficiais, trajados a rigor, fizeram com que me sentisse reduzido à minha insignificância plebeia, tal como me tinha sentido quando vi as fidalgas cavaleiras.

No Largo da Igreja Matriz de Oeiras, entretanto, grupos de fidalgos e muito povo esperavam por sua magestade, El Rei Dom José I.


O Marquês de Pombal, na sua Quinta de Lazer, em Oeiras, hospedava e organizava festas para os seus convidados. Alguns acompanharam-no na recepção ao rei. No largo da Igreja de Nossa Senhora da Purificação foi divertido entrar nesse mundo de faz-de-conta porque os actores foram convincentes na representação de algumas maneiras de ser e de estar da alta nobreza pombalina.


Conde de Oeiras dando as boas-vindas ao rei

O conde está de cabeleira branca, acompanhado de sua segunda mulher, a condessa austríaca Maria Leonor Ernestina Daun. Dom José I concedeu a Sebastião José de Carvalho e Melo dois títulos de nobreza. Conde de Oeiras em 1759, e Marquês de Pombal em 1769, título com o qual ficou conhecido para a história. A avalanche de fotógrafos à minha frente não me permitiu tirar fotos ao conjunto. Na foto, à direita, reconheço o mestre de cerimónias do rei.


D. José I, ladeado da família, à sua esquerda e de elementos da alta nobreza, ouvindo atentamente as boas-vindas do Conde de Oeiras e seu primeiro-ministro.

Durante a cerimónia o grupo Coral Vértice interpretou cânticos de música sacra do período barroco.

Muito povo juntou-se à cerimónia de recepção ao rei. Ouviam-se vivas vindos não apenas dos figurantes, o que realça a predisposição popular para apreciar o fausto e evidencia que tem atitudes reverenciais para com os detentores do poder. Noutras situações é o oposto. Consta que o Marquês, numa das vindas à sua quinta, onde mandou construir um palácio, tenha trazido um urso e que o povo noutras ocasiões o tenha insultado gritando "Lá vai o urso!"



Fim da cerimónia de boas-vindas ao rei.

Séquito real dirigindo-se a pé para o largo diante da Câmara Municipal


Um Conde de Oeiras radiante

Não é para menos, Sebastião José de Carvalho e Silva, descendente de fidalgos da província, tinha acabado de ser agraciado pelo rei com o título de conde! O actor que interpretou o papel de Conde de Oeiras foi brillhante, está de parabéns. Jovem e de estatura alta, com o seu savoir-faire e impecavelmente trajado de nobre, fazia lembrar uma galante personagem da corte do Roi Soleil. É difícil imaginar como seria a vida na corte portuguesa porque não há relatos, retratos e filmes que a materializem na imaginação de populares do século XXI! Talvez estes desfiles históricos contribuam para formar a ideia de que a corte portuguesa, embora provinciana, seguia as modas ditadas pelos Bourbons e Habsburgos. Mas não restam dúvidas de que o Conde de Oeiras passou com distinção no Desfile Pombalino!


Danças de salão na rua!

Em Paço de Arcos e em Oeiras foram montados amplificadores de som que, transmitindo música barrôca e em harmonia com a cenografia, nos transportaram e fizeram reviver a época do Iluminismo Despótico.


Fim da festa pública de recepção ao rei em Oeiras

A vida de Sebastião José de Carvalho e Melo correu-lhe bem até à morte do rei D. José I, em 1770. Ainda era um jovem turbulento quando ficou viúvo da primeira mulher, Teresa de Mendonça. D. João V, então rei, nomeou-o embaixador em Londres e Viena. Foi a rainha-mãe de D. José I, austríaca, que o apresentou à sua segunda esposa e aconselhou o filho, por morte de D. João V, a designá-lo como primeiro-ministro do reino. E, como nos contos de fada, assim foi. O marquês governou com mão de ferro, atacando os jesuítas e decapitando os Távoras. O marquês caiu em desgraça no reinado seguinte. D.Maria I, profundamente religiosa, não lhe perdoou as reformas empreendidas. O marquês acabou os seus dias em 1782, exilado, numa propriedade dos pais, em Pombal.


Fecham-se os portões do palácio do Marquês de Pombal

Povo ficou à porta. A festa continuou lá dentro, nas salas do palácio e nos jardins à francesa, para figurantes e VIPs, quiçá regada com Muet et Chandon.